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Os danos do estigma
Lucia Bridi

 Os Danos do Estigma

 

               O histórico preconceito com as doenças e doentes mentais, a psiquiatria e os psiquiatras, está longe de ser assunto superado. Se está claro que bullying, preconceito e estigma geram significativo impacto psicológico e sofrimento emocional, não estamos habituados a atentar para outras sérias consequências daí derivadas, por exemplo, os que advém da negativa e/ou adiamento da busca ou encaminhamento ao atendimento especializado de um psiquiatra.

 

               Muitos acreditam que depressão e ansiedade podem ser superados com força de vontade, outros ainda entendem que somente pessoas severamente desconectadas da realidade ou com condutas inapropriadas tem indicação de ir ao psiquiatra. Pensar na doença mental como sinônimo de incapacidade e designar pacientes como fracos de caráter são pensamentos preconceituosos que muitas vezes provocam procrastinação na busca de auxílio ou no encaminhamento. Assim, doenças cronificam e vidas se deterioram ou tem um desfecho ainda mais trágico, o suicídio.

 

               Se a compartimentalização do conhecimento em medicina pode, eventualmente, facilitar a desumanização do atendimento (foca-se no estômago e não na pessoa que digere ou no pulmão e não na pessoa que respira), por outro lado, é inegável que torna diagnósticos e tratamentos mais ágeis e precisos na maior parte das vezes. O conhecimento médico é vasto e cresce de forma galopante. Muitas vezes acompanhar os avanços da própria especialidade exige esforço, que dirá da medicina como um todo. Quando um médico, reconhecendo essa verdade e diante de um paciente com sintomatologia psiquiátrica, decide por encaminhá-lo ao especialista, está avançando um passo no combate ao estigma social que isso representa.

 

               Muitas vezes, o preconceito é do próprio paciente, receber encaminhamento ao psiquiatra pode ser entendido como uma ofensa ou acusação (de louco, de incapaz ou de fraco, incompetente em lidar com a própria vida). A percepção disso pelo médico pode também facilitar a manutenção do paciente sob seus cuidados, mesmo que de forma paliativa. Essa oportunidade de psicoeducação e reforço do quanto adoecer (no sentido mais amplo) é inerente à condição humana, também se revela em janela para a desestigmatização.

 

               Eventualmente, aceitar atendimento por terapeutas não psiquiatras é um pouco menos carregado da ideia de que fazê-lo é assumir a “loucura”. Psicólogos e outros terapeutas, quando reconhecem os limites da própria função e identificam adequadamente a necessidade de que aquela pessoa seja medicada e promovem o adequado encaminhamento, estão exercendo papel importantíssimo nessa luta secular.

 

               Famílias inúmeras vezes reforçam preconceitos usando “louco” como adjetivo pejorativo a alguém que esteja em realidade doente (tão simplesmente doente como um asmático ou um hipertenso, mas apresentando sintomas de outra ordem, do pensamento, dos sentimentos, do comportamento). Outros familiares exigem que o paciente “se ajude” sem compreender que a incapacidade de fazê-lo é parte da doença. Acolher seu familiar com qualquer sofrimento mental, respeitar seus limites e apoiá-lo na busca do tratamento é combater a psicofobia.

 

               Por tudo isso e tantas outras questões relacionadas, pessoas chegam aos consultórios psiquiátricos em situações cada vez mais graves, cronificadas de tal forma que a resposta às medidas terapêuticas possíveis se dificulta, muitas vezes com sequelas irreversíveis (dano cognitivo, condições clínicas decorrentes de tratamentos mal conduzidos ou consequentes a tentativas de suicídio).

 

               Precisamos falar de saúde mental como se fala de saúde. Facilitar o acesso e a busca do psiquiatra sem pudores é papel de todos nós: pacientes, familiares, médicos, terapeutas e sociedade. Essa necessária mudança do paradigma da doença mental só será possível com informação e atitudes.

 

 

Luciana Bridi

Médica Psiquiatra

CREMERS 22.555



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